• Mariana Soeiro

O esquerdomacho feministo




Você o vê, usando uma saia longa e esvoaçante e um all star que nunca foi apresentado a um sabão na vida, debruçado no pilar com a tinta descascada — e uma piroca desenhada— da Universidade Federal.

E daí que ele tem 32 anos, entrou pro curso de Psicologia em 2012 e ainda está no terceiro período? O tempo, além de relativo, é uma criação humana, baby.

Ao se aproximar, atraída pelo magnético olhar vago de quem usa droga desde os 16 anos, você percebe que o cheiro desse cara não é dos mais agradáveis. Entretanto, super dá pra relevar, porque ele é vegano e faz o próprio sabonete com óleo de cozinha usado e alguma parada de melaleuca.

Ao lamber a ponta do beck mal bolado, te explica que a maconha faz super bem sim, ao contrário do que dizem todos os especialistas.

Ele se sente super criativo, produz muito mais e consegue entender melhor a teoria de Freud.

Claro, ele fuma um prensadão cuja probabilidade de possuir caca de rato na composição é super alta, mas e daí? Ele diz que, dessa maneira, além de economizar, ajuda o pequeno produtor: Maicão, o noia que ele conheceu num rolê.

Sua preocupação com o boicote às grandes indústrias é inspiradora. Vê a pobreza muito de perto desde criança, então sabe como é a negligência do governo fascista para com a periferia.

A Jô, empregada da casa dos pais dele, mora na favela e é como se fosse da família.

Com mais um tempo de papo — ele provavelmente não lembra seu nome, mas te chama de “moça”, o que é suuuper poético, sensível e original — , enquanto prende os cabelos longos num contemporâneo coque samurai, te convida pra tomar um litrão de Brahma na esquina da facul, porque “você é diferente das outras garotas”.

Mais madura, sabe? Não se importa com futilidades. Nem parece que tem só 17 anos!

Vocês vão a pé, porque ele é ativista da causa ambiental e completamente contra carros. Anda pra cima e pra baixo na bike com cestinha que ele apelidou de Amália, porque pedalar é o que o faz sentir vivo.

“Não tô com ela aqui porque hoje meu pai me trouxe.”

Na mesa do bar, ele tira um livro meio surrado da ecobag sustentável onde carrega todas as tralhas e lê um trecho de Baumann em voz alta. Dá um gole no copo americano, sensualmente molhando os pelos da enorme barba por fazer, lamenta pelo amor moderno ser tão líquido, te conta da ex maluca que ele teve e de como sofreu com o quanto ela era abusiva.

Ah, o que ele fez pra ela agir assim? Absolutamente nada.

Provavelmente ela não era segura o suficiente pra amar um cara que voa, que é livre, que é do mundo, sacou? Free spirit, como diz a tattoo cagada que ele tem no antebraço.

“Mas fala de você, moça!”, ele faz questão de exclamar. Gosta de ouvir mulheres fortes e empoderadas falando, porque totaaaal faz parte do movimento feminista.

Ele inclusive desenvolveu um projeto com o objetivo de aumentar a autoestima das mulheres, estimular o amor próprio e a autoadmiração: fotografar nu artístico feminino. Cara, como ele é engajado!

Na telinha do iPhone, te mostra uma foto de uma mina magra de franjinha exibindo a bunda empinada e redondinha na sacada de um apê de chão de taco na Paulista. Ela fuma um cigarro e, ao fundo, aparece uma samambaia.

Você está cada vez mais envolvida na névoa de sensualidade, sentimentalismo, sensibilidade e cheiro de cigarro barato que esse carinha exala. Ele fala coisas lindas, colocou uma flor murcha no buraco fedido do alargador e recitou um trecho de uma música do Caetano Veloso pra você.

Irresistível.

No apê dele, não repara muito na bagunça, tá? Ele tem um lifestyle orgânico. A pia cheia de louça por lavar e os panos podres no balde na lavanderia não exigem pressa, gata, relaxa. A vida é um sopro pra desperdiçar com futilidades. You only live once.

Bate a cinza de tabaco orgânico natural do lençol surrado e te deita na cama. Beijos lentos e apaixonados, mão aqui, mão ali, você tira a roupa e ah! meu Deus.

Como seu corpo é lindo. Suas estrias parecem as ondas do mar, ele nem liga pra celulite, suas dobrinhas são deliciosas e, pelos? pfff, por favor, só macho escroto liga pra pelos na hora do sexo.

“Você é poesia, moça. Teu corpo é música”, ele diz, pronto pra meter o pau meia bomba com um leve aroma de Polenguinho em você.

“Mas ah, gata… Camisinha? Não consigo transar de camisinha, aperta… Eu broxo.”

Após você negar, finalmente usando os últimos dois neurônios que te restaram após passar mais de uma hora ouvindo esse cara falar, ele insiste várias vezes e de um jeito meio grosseiro, que você não tinha percebido antes.

Afinal, você é a neta das bruxas que não conseguiram queimar e conquistaram direitos contraceptivos pra sua geração. Você toma pílula, né?

IST? Não tem não, fica tranquila. Ele passa óleo de coco no piru, leu num artigo científico que é super eficaz. Precisa se informar com atenção, porque a era das fake news que veio junto ao governo Bolsonaro é absurda.

Não quer mesmo assim? Pô, sacanagem, cara. Atiçou , provocou, seduziu, pra fazer isso no final? Mancada.

Baumann realmente tinha razão, né? É tudo questão de ego. Hoje em dia as mulheres são muito egocêntricas, só querem biscoito mesmo.

E quer saber mais? Você nem é tão gostosa assim. A ex dele, a maluca, era bem melhor.

Duas semanas depois, você está completamente arrasada.

Até ouviu as músicas de merda que ele compõe e toca num violão desafinado pra postar no Instagram.

Tá vestindo a camisa que ele esqueceu com você — e foi comprada num brechó, porque ele apoia o consumo consciente — e tem uma crosta de desodorante seco na axila.

Chafurdada em pensamentos autodestrutivos, pensando como pôde perder um homem tão único e maravilhoso, você recebe uma mensagem.

Meu Deus, é ele! Pedindo desculpas!

Disse que é muito complicado se livrar das amarras da masculinidade tóxica. Tem que ter paciência, porque ele tá se desconstruindo. Entendeu que foi babaca com você, mas é tudo culpa do patriarcado, não dele. Vai mudar, promete!

Ele quer aprender. Foi até no ato da Marielle Franco no ano passado. Como não ser feminista? Ele tem mãe. Como ele é engajado!

“Que bom que estamos bem de novo, gata.

Mas então, sabe o que eu tava pensando? Poderíamos marcar um ensaio fotográfico com aquela sua amiga, a Clara.

Oi? Não, não essa. A magrinha.

Poderia ser uma coisa mais sensual e tal… Pra mostrar o empoderamento feminino, dar uma engajada na causa LGBTQIA4002–8922.

Mostrar pra esses machos escrotos que eles não têm direito sobre seus corpos e sua sexualidade.

Juntar a autoestima da mulher com uma militância lésbica, tá ligado?

Eu fotografo, pra vocês se sentirem confortáveis.

Pensei em chamar o Carlos, meu amigo de Filosofia, pra dar uma mão na iluminação.

O que acha?”