• Mariana Soeiro

“La Délicatesse” é um manifesto aos recomeços (e às novas chances que o amor nos dá)

Cuidado: contém, aproximadamente, um bilhão de spoilers. Eu literalmente conto o filme todo aqui. Imparcialidade e mistério cinematográfico não são meus fortes — buscarei melhorar.



O amor pode ter uma cicatriz na sobrancelha, cabelo encaracolado, gostar de The Smiths e cantar em arquibancadas como Heath Ledger em 10 Thing I Hate About You (1999); aprende-se com os calos, porém, que essa idealização cinematográfica pueril dos moldes românticos é quase sempre inocente, beirando à tolice.


Entretanto, não significa que deixa de ser deliciosa! É nessa atmosfera de amor idôneo que La Délicatesse (2011), dirigido pelos irmãos Stéphane e David Foenkinos, tem seu início perfeito para capturar facilmente os que sorriem com bons romances idealizados. Nathalie (Audrey Tautou) e François (Pio Marmai) nasceram para estar juntos: e é exatamente esse o problema.


Nesse início de filme, o roteiro é peculiar e cativante, apesar de clichê: uma mulher “diferente das outras”, que pede um suco-de-damasco-nada-óbvio, um homem solar, café e uma linda história de namoro, que se torna um noivado com anel de molho de chaves e um casamento cheio de uma intimidade retratada de forma belíssima no trabalho de câmera e direção de elenco. O filme é rico em diálogos paralelos entre o casal em meio a conversas efusivas de terceiros, closes em rostos que se olham, em bocas que se beijam e em projetos de cumplicidade rotineira.


É numa dessas brincadeiras gostosas de casal, então, que Nathalie vê seu marido cruzar a porta de casa pela última vez. O acidente que matou François é o ponto de virada do longa, separando as crianças dos adultos e arrancando as cascas de feridas de quem esperava mais um comfort movie com pouco clímax e muitos beijos franceses nos olhos. A protagonista enterra seu marido, volta para casa e encontra tudo como estava antes — sabendo que, na verdade, nada estava igual.


A partir daí, conforme os dias passam na cronologia, a forma de se trabalhar com o tempo é angustiante. Em vários períodos de silêncio duradouro, takes longos mostram o rosto de Audrey Tautou sendo brilhante ao transpassar o luto. Essa dinâmica é quebrada bruscamente com momentos de câmera na mão, retratando cenas em que Nathalie é acometida pelo pânico, pelo medo e pela dor.


Da mesma forma, a direção de arte opta por figurinos com cores que se camuflam nos móveis onde a personagem vive no automático e nos lugares por onde vaga — Nathalie está presa dentro das rachaduras da parede, nas fotos da geladeira, nos cheiros das roupas de cama e onde quer que vá dentro da própria casa estranha, já que “lar” era onde estava François.



A realidade bate à porta


Vivendo a perda e visivelmente sentindo o sofrimento enrijecer os músculos, a personagem calça seus sapatos e volta ao trabalho. Desse ponto em diante, é interessante pontuarmos a construção da narrativa de uma mulher que perdeu sua mais presente referência masculina.


Nathalie foi acompanhada pela figura de François durante todo o seu crescimento pessoal e profissional; isso, não obstante, não foi suficiente para poupá-la completamente dos assédios e das micro violências — apenas eram dotadas de sutileza, já que homens apenas fixam impeditivos para desrespeito com mulheres quando há outro homem dominante exercendo sua posse.


Nesse sentido, cabe citar Margarita Pisano, teórica feminista chilena, que diz em “El Triunfo de La Masculinidad” que “a feminilidade é uma construção organizada dentro da masculinidade e a serviço desta”. A sexualização de Nathalie performada por seu patrão Charles (Bruno Todeschini) é mais relacionada a poder e dominação que a qualquer outra motivação sentimentalista.


Charles, casado, representando uma figura hierárquica superior e tendo ao seu lado uma secretária igualmente marginalizada sexualmente à la Jessica Rabbit, traz contraste extremo à figura confortável de François para a protagonista: ignorante a limites, infiel, mau caráter e assediador. Charles assedia e desrespeita Nathalie a ponto de dizer que, durante o luto, conseguiu ficar “ainda mais bonita” — um claro flerte com a fragilidade, vulnerabilidade e confusão mental feminina.


Sua cena mais nauseante é construída em grande disparidade ao restante da paleta do longa — o vermelho predominante no restaurante, junto às luzes quentes demais, cumpre seu papel ao trazer luxúria e desconforto.


A quebra de realidade relacionada à masculinidade é mais um dos lutos vividos pela personagem ao longo da trama.



Delicadamente


Três anos se passam na cronologia do filme, e Tautou trabalha seu corpo com maestria para carregar o peso de uma personagem que viveu o luto intensamente. Nathalie foi promovida e dedicou sua vida ao trabalho, mantendo laços estreitos apenas com uma figura que representa o amor em outra faceta: Sophie (Joséphine de Meaux), sua melhor amiga.


Lida como hiperativa e obcecada pelos colegas subordinados devido à frequência de trabalho, Nathalie dá sinais de prontidão para derrubar as pedras da muralha que construiu em volta de si — se posiciona claramente quanto às atitudes de seu chefe, acostuma os dedos novamente à presença de taças de vinho casuais e, numa cena emocionante, sai para dançar com Sophie pela primeira vez desde a morte de François.


Ali, em meio a tantos outros corpos com vidas singulares, Nathalie se reconecta com sua própria existência. Dança de olhos fechados e peito aberto enquanto, do bar, é observada por Sophie, que chora. O alívio e o orgulho estampam seu semblante, e a cena não precisa de nenhum diálogo para mostrar o que propõe: libertação. Belíssima direção das atrizes.



Markus e a beleza de ser um cara absolutamente comum


Nathalie beija Markus (François Damiens) pela primeira vez no impulso, sem motivos e inesperadamente. A cena é horrorosa e desconfortável — o ator está longe de ser um galã e seu personagem, em choque, não reage ao beijo, mantendo os olhos abertos em uma cena filmada com ângulo provocativo e incomum. É realmente tarefa muito difícil censurar o pensamento de “puta que pariu, mas que homem FEIO” ao assisti-la; entretanto, parte da beleza da construção desse encontro dá-se, justamente, aí.


Markus é comum. Cumpre um cargo subordinado à Nathalie, ganha o suficiente, mora sozinho, passa despercebido por todos à sua volta. Não é extraordinariamente engraçado e nem notoriamente charmoso — é gentil, honesto, bom de papo e respeitoso. Em dicotomia à François, sua entrada na vida de Nathalie não desperta frio na barriga imediato no espectador; apenas curiosidade.


A intimidade entre os dois é construída de forma tão delicada, lenta e fluida que senti, por muitas vezes, que eu mesma derreteria. Markus mostra ser apaixonante apesar de não ser avassalador — mostra-se real. O amor não precisa ser fogos de artifício, dor de barriga, pressão baixa e ansiedade pra ser intenso. Rs.


Entre essas construções, mencionar a genialidade das sutilezas do roteiro é imprescindível. Markus apresentou-se como mais um perfil masculino diferente à Nathalie: ouvia suas histórias de infância, praticando uma oitiva verdadeiramente interessada nas palavras e não em chegar dentro das calças da personagem; abria as portas dos restaurantes e estabelecimentos, a olhava com admiração, a desejava com respeito e carinho.


A protagonista, por sua vez, pouco a pouco permitiu-se ser conduzida nessa dança natural: abriu sua caixa de memórias afetivas, partilhou suas balas preferidas, aceitou jantares e sugeriu passeios. Beijou e foi beijada, sentiu ciúme e deixou Markus frequentar lugares antes turvos e doloridos: o cemitério onde foi enterrado François e a casa de sua avó.


Os tatos, olhares e afetos foram trabalhados com sensualidade crua e bela aplicada pela equipe de fotografia e iluminação, que trouxe os mesmos closes anteriormente propostos para a atmosfera de idealização de François mas, dessa vez, levando a cena para outro patamar. Nenhum amor será igual ao outro.


Com respeito e sensibilidade numa cena que sai da ordem cronológica e básica na qual a história é contada, a última frase do filme liga todos os pontos reforçados durante o longa. Markus diz: “E foi nesse lugar, no coração de todas as Nathalies, que eu decidi ficar”.


Tautou finaliza dando a Nathalie um olhar esperançoso numa quebra de quarta parede apaixonante. É, Carlos Drummond… O amor realmente é um bicho instruído.