• Mariana Soeiro

* barulho de folhear de páginas *



Desde muito pequena, sempre adorei ir ao mercado.

As luzes da entrada, o barulho chacoalhante das grades do carrinho, as prateleiras perfeitamente organizadas por tamanho…A sensação de frescor de sessão hortifruti e a felicidade em saber que, quando chegasse em casa, poderia correr até as sacolas colocadas sobre a mesa e começar a garimpar, entre os pacotes de comida, shampoos e frutas, as coisinhas gostosas e porcarias que minha mãe havia comprado depois de tanta insistência da minha parte.

Apesar de carregarem uma memória afetiva que faço questão de perdurar até hoje — motivo pelo qual eu, morando sozinha e precisando sempre de poucos itens, passo 45 horas barateando pelos corredores até que perceba algum olhar esquisito vindo de um segurança que me desperte medo de acharem que estou analisando o perímetro para assalto — , esses tópicos da Lista de Motivos Para Amar Mercados não chegam nem perto da mais deliciosa das sensações: a aproximação do caixa.

Desde os 11 anos, sempre empoleirada no carrinho (a completo contragosto da minha mãe, que era muito elegante e achava que todos iriam achar que ela não me deu educação), estrategicamente analisava a prateleira mais importante de todas as outras posicionadas ao lado das esteiras (capitalismo desgraçado!): sempre perto de alguns chicletes e chocolates, lá estavam elas… As revistas.

Atrevida, TodaTeen, Yes! Teen e, a suprema entre todas as outras: Capricho. Cara, sem brincadeira: eu lembro de sentir a boca salivar e os olhos dilatarem assim que via os reflexos das luzes do mercado nas capas brilhosas.

Sempre com algum artista na capa, eu já ansiava pela negociação da compra com a patroa — que, convenhamos, preferia gastar os 15ão da revista a me ouvir fazendo um charme birrento falando sobre Ah! Naquela Revista Que Eu Pedi Tem Entrevista Com O Justin Bieber.

A experiência de ler uma revista adolescente era mais que distração ou entretenimento. Pra mim, era uma experiência sinestésica e até mesmo de autoestima. NADA me fazia sentir mais única, poderosa, descolada e fashionista que folhear as páginas de cheiro TÃO delicioso, que adorava sentir a cada folhear de textura na ponta dos dedos.

As matérias sempre eram muito variadas. Moda, famosos, livros, filmes, músicas… — e, veja só que curioso: quando mais nova, eu arrancava a página da reportagem sobre sexo logo após ler (com muito interesse) e jogava bem no fundo da lixeira. Isso diz muito sobre ser mulher, mas esse é um papo mais denso e pra outro texto.

Eu mergulhava de ponta na atividade de tirar os sapatos, colocar um shorts de pijama e devorar todas as sessões de uma vez só; às vezes, lendo beeeem devagarzinho, pra durar mais…

Já “mais velha”, aos 14, me mudei pra um apartamento numa avenida movimentada de Ponta Grossa, minha cidade natal. Lá perto, o paraíso: uma banca de revistas, que recebia todas as Caprichos antes dos mercados.

Mais uma experiência sensacional pra adicionar à minha lista de rolês permitidos a uma adolescente com pais restritivos: ir até lá, fingir que não estou vendo a bundona da moça da Playboy na prateleira de cima e comprar a edição mensal, pronta pra iniciar toda a sinestesia de novo.

Toda essa pira, somada às incontáveis vezes em que assisti Jenna Rink trabalhando na revista Poise e Andrea Sachs passando perrengue de forma levemente romantizada na tela do meu DVD — me fez decidir, com imenso afinco, paixão e idealização, o que eu quero como profissional: ser a pessoa que faz a revista acontecer.

Não me levem a mal e nem me achem uma saudosista. Não quero ser a traidora da Geração Z e parecer uma Millenial daquelas insuportáveis que falam que “quando elas tinham a minha idade tudo era melhor”, mas o que digo aqui vem de um amor muito lindo em praticamente um ode às experiências: tenho muito medo de que as revistas impressas acabem antes que eu consiga fazê-las.

Quero falar que “tenho que acompanhar lá na gráfica”, tirar discretamente os sapatos sob minha mesa e sentir os dedos no carpete do escritório pra escrever mais confortavelmente e ter vários quadros com capas bonitas e de muito bom gosto penduradas na parede.

Quero pensar nas cores, no layout, quero colar post-its por todos os lugares do boneco, quero escrever e falar sobre coisas e quero fazer reuniões com pessoas que também querem falar e escrever sobre coisas!

E, além disso, ser a melhor no absolutamente mais importante job que podem me passar:

Saber que, em algum lugar, uma menina e uma mulher tiraram os sapatos, colocaram um shorts de pijama e tiveram sede do mundo por causa de algo que eu ajudei a criar.