• Mariana Soeiro

bê-a-bá do feminino


“O feminino”, me disseram uma vez, “vem com manual. Uma apostila com intermináveis capítulos, desses que se leem inúmeras vezes com olhos cansados. Trezentos e sessenta e cinco módulos anuais que não se findam nem quando fingimos que entendemos– como fazem as crianças suadas depois da Educação Física, afirmando que entenderam as frações na lousa sob o efeito da endorfina. Uma vez aberta, nunca se chega à última página – porque ela não existe.”


Dessa maneira, assim que meu primeiro choro foi lido como cor-de rosa, senti a apostila sob meus ombros ainda sujos de sangue. Pesada, naftalítica e alérgica.

Nos primeiros módulos, sob vários parágrafos grifados e exercícios que rasgaram a folha em inúmeras tentativas, aprendi sobre a Florzinha – e, da mesma maneira, sobre tudo o que carregá-la representava no campo das proibições.


A Florzinha era a razão pela qual eu não podia rolar na areia do parquinho como meu amigo João. Era ela, também, que me fazia chorar ao ter o couro cabeludo violentado em penteados altos, com grampos, fivelas, laços e elásticos apertados.

A Florzinha me ensinou que os arranhões, machucados e ofensas vindos daqueles que eram como o meu amigo João eram motivo de orgulho – porque, se me machucavam, era porque gostavam de mim. E eu, como dona de uma Florzinha, deveria me sentir honrada por despertar sentimentos em um deles... Independentemente de como me violentavam.


Conforme os módulos avançavam, percebi que era meu dever esconder e resguardar a Florzinha. Entendi isso após algumas noites em claro estudando as palavras – que, claramente, foram escritas por alguém à imagem e semelhança de meu amigo João – enquanto recebia olhares feios de todos os cantos.


Minha avó, Dalva, tinha um enorme pomar – onde, por alguns momentos, longe dos escritores das apostilas, pude fingir ser João, com os joelhos ralados e a boca grudenta de suco de manga mordida do alto de um galho de mangueira.


Além das árvores, vó Dalva era dona de diversas rosas vermelhas. Cuidadas, protegidas, perfumadas, belas e silenciosas – exatamente como aprendi que eu mesma deveria ser. Numa noite, porém, as rosas foram roubadas, restando apenas espinhos e pétalas amarronzadas quando amanheceu o dia.


Vó Dalva, então, não procurou quem as roubou de seu jardim. Disseram-na para sentir-se honrada por alguém tê-las achado lindas a ponto de não ser possível controlar seus instintos.


Apesar disso, no dia seguinte, longas voltas de arames farpados percorreram o terreno do pomar – arames, esses, que acompanharam vó Dalva pelo resto de sua vida.


Entendi, ali, que deveria proteger a Florzinha de todos aqueles que eram como meu amigo João. Instalei, em volta de mim, uma cerca de arame farpado como a do pomar de vó Dalva.


A partir dali os módulos ficaram cada vez mais difíceis. Aprendi que, quanto mais desconfortável e machucada eu estivesse, mais atenção daqueles que eram como meu amigo João eu teria – e, apesar de entender que o arame

farpado ainda era necessário, eu deveria almejar tal atenção mais que nada nesse mundo.


Um dia, porém, enquanto me equilibrava em farpas a quinze centímetros do chão que me impediam a movimentação, com vários litros de uma massa da cor da minha pele estrategicamente espalhados pelo meu rosto e com os seios dolorosamente apertados para cima, conheci uma amiga que era como eu.


Os que eram como meu amigo João sempre tinham acidez nas papilas gustativas ao me ensinar palavras sobre mim.


Puta.

Vagabunda.

Difícil demais.

Puritana demais.

Fácil demais.


Através deles, meu dever de casa era me adequar exatamente àquilo que era necessário para que eu fosse digna o suficiente para entregar a Florzinha – e, a partir desse momento, deixá-la sob a posse de um dos que eram como o meu amigo João.


A amiga que era como eu, por sua vez, me mostrou palavras diferentes, que nunca tinha lido antes.


Forte.

Segura.

Independente.

Autossuficiente.


Deitou comigo, de pés descalços na grama, com roupas leves e o rosto limpo, e me contou tudo sobre a força descomunal, estratosférica e ameaçadora que eu tinha dentro de mim – chamada, por muitos anos e da forma mais patética do mundo, de Florzinha.


Me deu sopa, alimento, água, limpou as cascas dos machucados causados pelo arame.


Me contou sobre as vós Dalvas, sobre o que fizeram com suas rosas vermelhas, sobre quem eram os caras como o João.


Tirou das minhas costas a apostila que me deram ao nascer – carcomida por traças e poeira.


A amiga que era como eu me deu a mão e me mostrou o que realmente deveríamos sentir pelos caras que eram como o João – que, de meu amigo, nunca teve nem uma parte da etimologia.


Entendi onde deveríamos colocar a apostila.

Com as pontas dos dedos queimadas, então, descobrimos outra utilidade para nossa cerca de arame farpado.